Padre Casimiro Irala SJ é o fundador do grupo OPA. Nascido em 4 de março de 1936, na cidade de Assunção, no Paraguai, teve toda a vida ligada à arte, especialmente a música. Possui mais de 20 discos gravados, livros publicados e mais de 300 canções compostas, entre elas a popular Oração de São Francisco. Entrou na Companhia de Jesus em 1956, se ordenando padre em 14 de dezembro de 1968. Dedicou-se por longos anos à formação de jovens lideranças cristãs no campo das artes, o que o levou a fundar em 1970 o Treinamento de Liderança Musical (TLM) e o OPA, em 1976.

TRAJETÓRIA

Neste texto, Padre Irala narra sobre sua trajetória e descreve a história do OPA a partir dela.

Um pouco de história

Não é possível separar o OPA e sua história da história da minha vida e da vida das pessoas que hoje fazem parte do OPA. Por isso, peço desculpas pelo fato de fazer um resumo dessa história.

Sou paraguaio e meus pais já tinham três filhas quando meu pai foi chamado a servir, em 1932, na guerra entre a Bolívia e o Paraguai. Voltou da guerra em 1935 e um ano depois eu nasci: fui marcado pelo ideal da paz. Éramos muito pobres. Não tínhamos sequer geladeira. Quando tinha 7 anos minha mãe me pedia que fosse ao mercado, todos os dias, bem cedinho, comprar os alimentos do dia.

Já aos quatorze anos, não mais foi necessário que eu madrugasse para ir ao mercado; então, os padres salesianos, de quem era aluno, pediram pessoas que os ajudasse na missa, pois não podiam celebrar sem ajudante. Acostumado a levantar bem cedo, ia ajudar em uma, duas, em até três missas. Nesse tempo, era participante da Ação Católica.

A missa me converteu: fascinado por essa obra, que considero uma das maiores obras de arte da humanidade, estudava, então, com afinco, o latim, que, nesse tempo, era matéria do colégio. Por aí chegou a vocação. Entrei na Companhia de Jesus para ser jesuíta aos 20 anos, deixando a carreira e o meu talento, natural, pela engenharia.

Meu pai era músico e me ensinou as primeiras notas do violão. No noviciado encontrei-me com as obras maravilhosas de Gelineaux (os salmos) e com as músicas de Aimé Duval. Aprendi tudo de cor e em francês. Pediram-me para dirigir o coro, sem saber sequer colcheias, fusas ou semi-fusas!!! Ao verem minhas capacidades artísticas, meus superiores me mandaram ao juniorado do Chile, onde valorizavam o estudo das artes, e lá, me marcou muitíssimo o exemplo e os ensinamentos do Padre José Donoso e comecei, então, a estudar Cinema.

Já no México, ao estudar filosofia, meus colegas me disseram: “Você canta super lindo as canções folclóricas. Por que você não compõe suas próprias canções?”. Considerava-me incapaz, não de fazer música, que saía da minha alma, senão de escrever a letra. Mas, com muito esforço, compus uma canção e meus colegas me animaram e aplaudiram bastante. Por outro lado, a leitura apaixonante da obra de Charles Moeller, “Literatura do Século XX e Cristianismo”, marcou-me profundamente.

Em Assunção, Paraguai, fiz a minha etapa de magistério. Ali, meu pai compôs as primeiras canções da missa em Guarani. Meu irmão e minha irmã mais jovens cantavam na TV e no rádio, obtendo grande sucesso. Animado, fiz canções de Natal e gravei, com eles e com alunos do colégio, um compacto, com 4 canções de Natal.

Em fevereiro de 1966, comecei a Teologia em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil - apenas dois meses depois do término do Concílio Vaticano II. O Documento Gaudium et Spes marcou-me para toda a vida. Igualmente a frase de Karl Rahner: “a Trindade imanente é a Trindade econômica”. A partir dessa frase, comecei a construir minha Teologia.

Desde então, já convencido da importância de unir ortopraxis e ortodoxia, pedi permissão a todos os meus superiores para começar a incursionar pelo sul do Brasil, tocando meu violão, cantando e analisando as canções de sucesso do momento. Tive um sucesso impressionante. De segunda a sexta-feira, estudava; sábado e domingo viajava para dar conferências que se transformaram em show. Era, sem dúvida, o primeiro padre que vinha fazendo isso e a resposta foi de grande aceitação.

Descobri, então, o valor do que hoje chamam de “inteligência emocional”. Também descobri que, em se tratando da mensagem de Cristo, a sensibilidade (as canções, a arte) valem quase tanto ou mais que a inteligência lógica e os estudos (as aulas e os livros).

Levava, como mensagem, minha Teologia e me convenci de que se queremos levar Deus “imanente” ao mundo, temos que fazê-lo presente de modo “econômico”. E qual é a “economia” de Deus? Como Deus age? Deus age na Trindade. E, nesse momento, tive uma intuição que nortearia, marcaria, depois, todos os meus trabalhos e minha espiritualidade. (Veja, brevemente, a inspiração na Contemplação para alcançar o amor).

1) Deus Pai age criando: “Creio em Deus, Pai, Criador”. Deus não criou o mundo, o está criando agora! Primeiro ideal do OPA: a Criatividade.

2) Deus Filho age integrando: sendo Deus e ser humano, Jesus é a pessoa mais integrada que existe e modelo de integração. Segundo ideal do OPA: a Integração.

O Espírito Santo é a Comunicação de Deus ao mundo: Terceiro ideal do OPA: a Comunicação.

Em 1964, o Governo do Brasil se tornou ditatorial. Com um desejo de inovação, com um espírito contestador, os jovens foram relegados ao ostracismo. Não tinha lugar para eles na construção de um novo mundo, de um novo país. Via-se, por toda parte, uma atitude suspeita, a insídia, a delação. Enquanto isso, florescia a música popular, que reunia em multitudinários eventos, a juventude que cantava uma nova canção. A Igreja era o único lugar mais ou menos seguro para cantar, sonhar e viver a juventude. Os grupos jovens começaram a se espalhar.

Nesse momento, encontrei uma pessoa que depois se tornou meu grande amigo: Pe. Zezinho, que fazia uns versos maravilhosos, mas não sabia fazer canções. Ensinei-lhe tudo o que eu mesmo aprendi a fazer, e em muitas e longas conversas, bate-papo, definimos nossos caminhos: ele seguiria apostando um pouco mais na carreira “solo” e eu começaria a fazer uma carreira fundando grupos.

Conheci, também, o Padre Haroldo Rahm, jesuíta americano, radicado no Brasil, fundador do TLC (1968) (Treinamento de Liderança Cristã) que reunia jovens, em um encontro de fim de semana, usando os métodos do Cursilho de Cristandade. O Padre Haroldo me chamou, em princípio, para ensinar canções aos jovens a fim de serem cantadas na liturgia (porque eles cantavam qualquer coisa). Assim, nasceu o TLM (Treinamento de Liderança Musical) (31/07/1970) De sexta-feira à noite ao domingo pela tarde,passávamos três dias cantando e aprendendo canções para a liturgia renovada pelo Concílio.

Em 1967, já tinha gravado um LP com as Irmãs Paulinas e em maio de 1968 gravei a Oração de São Francisco que se tornou o hino de todos os que desejavam a paz.

Também gravei outra canção, como se fosse uma modernização do Cântico das Criaturas, de São Francisco, mas que, na verdade, era a teoria de Teilhard de Chardin colocada (enquanto é possível) numa canção. O Compacto me fez muito popular e se chamava “IRALA CANTA”.

Nesse momento, meu desejo era ter criado o OPA, mas o Pe. Haroldo preferia o Encontro feito de canções: prático, utilitário, simples, com um enorme sucesso.

Trabalhei com esse Encontro durante cinco anos, e, finalmente, decidi mudar, gradualmente, o TLM para OPA, introduzindo, aos poucos, as outras artes. Isso aconteceu em Salvador, na Bahia, iniciando-se em 3 de setembro de 1976. A colaboração de Ângela Araújo, que nesse tempo era a organizadora dos Encontros na Bahia, foi decisiva. Como o anterior encontro (TLM) era mais brilhante, mais estruturado e mais simples, o OPA custava a ser entendido, a ser aceito, pois era outro encontro e, como tal, mudava as coisas e começava a exigir muito mais.

Simplesmente, no lugar de aprender as canções já existentes para levá-las às suas paróquias, os jovens tinham que fazer suas próprias canções. Tinham que criar fotografias, coreografias, sketch de teatro, criar, criar... Isso requeria mais concentração, mais habilidades e o sucesso era mais escorregadio. As pessoas começaram a me abandonar. Com um pequeno grupo de fiéis fomos lutando e superando nossas deficiências, que eram muitas.

Resolvemos, nesse então, não fundar nada novo, agrupamento, congregação ou movimento. Não gostávamos e ainda não gostamos dos movimentos que tiram os melhores elementos de uma paróquia e os constituem em uma espécie de mini-paróquia e, ao mesmo tempo, não levam sua criatividade diretamente à paróquia ou diocese. Com a cidade ou com o ambiente de trabalho, fazem o mesmo. Resolvemos, então, ser “cidadãos comuns” unidos pela amizade e guiados pelo Evangelho.

O que seria o OPA, então?
Um Encontro, nada mais. Um fim de semana, cada ano, em uma localidade, e um Encontro Nacional, de 10 dias, nas férias.
Pela complexidade do mundo moderno, tivemos que fundar um agrupamento que rege e estrutura tudo aquilo que é produto do OPA. Sendo que, o OPA continua sendo livre, carismático e aberto à mudança, ao novo. Ele pertence à Igreja, ao Cristo, e já temos entre nós vários/as protestantes. O que nos une? A amizade, a oração. O amor de Deus nos une.
Já levamos mais de 30 anos fazendo OPA e este acontece em mais de 10 cidades. Temos uma dúzia de CDs, vários DVDs, Vídeos, e inúmeras pequenas peças de teatro, coreografias de dança, mais de 30 mil fotografias.

O discernimento é parte estrutural do OPA, sendo aquele que nos mostra o caminho onde ir, onde apostar. Sempre cantamos muito e entre todos nós devemos ter umas 700 canções, algumas delas publicadas. Em todo o Brasil são cantadas, sobretudo, pelos jovens. Os Encontros, ao mesmo tempo em que seguem uma rotina comum, são totalmente diferentes uns dos outros, porque tudo é criado ali mesmo. Por isso, nós podemos repetir os Encontros, uma e outra vez, e viajar para fazer os Encontros em outras cidades. Com o tempo, criamos uma espécie de “grande família”, mas sem segregação, sem excluir nossos lugares de origem, de base.

Alguns de nós, mais jovens, realizam missões com algo que decidiram chamar “Brinquedoteca”, fábrica de brinquedos, com crianças da periferia e é um bom trabalho, que é feito em conjunto, nos lugares onde está Fé e Alegria, entre jovens do OPA e estudantes jesuítas. Assim, trabalham na Ilha de Marajó, em Vazantes, no Ceará e em Natal (RN).

Em São Paulo, estão comprometidos com 4 paróquias, com a pastoral da juventude da Arquidiocese e em Salvador, com a CAMEC (Conselho Arquidiocesano de Movimentos Eclesiais Católicos). Em Belo Horizonte, estão nas paróquias levadas pelos jesuítas. No Recife, estão junto à Universidade Católica; em Curitiba, junto às Irmãs Vicentinas; em Brasília, junto aos jesuítas do Centro Cultural de Brasília. No Rio, estão junto à PUC e aos vários colégios. Em Quito, estão próximos à CVX, que já organizou dois encontros, um em Quito e outro em Guaiaquil. Em Massachuset (USA), estão junto ao Colégio Holy Cross, com um programa chamado “Art based program”, catequese com arte.

Para “nossas vocações” seguimos os princípios escritos no número 281 do Documento de Aparecida. Cada um no seu tempo, cada comunidade seguindo o seu próprio caminho, amadurecendo na adesão ao Senhor, alegrando-se como Jesus: “não perdi nenhum dos quais me foram dados”.

Legalmente, se responsabiliza pelo OPA uma associação civil chamada AOPA, que tem diretoria, paga impostos e leva adiante o gerenciamento dos nossos produtos como CDs, Vídeo, fotografias, etc. Já o OPA, mesmo, é um Encontro, e nada mais. Um encontro criativo e por isso, mutante, ágil, carismático. A Associação AOPA engloba umas 60 pessoas.

Os mais atuantes no OPA são mais ou menos 400 pessoas nas 10 ou 12 cidades em que estamos mais presentes. No Brasil: Curitiba (XII-77), São Paulo (X-76), Belo Horizonte (VIII-77), Brasília (X-76), Rio de Janeiro (X-79), Salvador (IX-76), Recife (IV-77), Teresina (IX-2000), e em cidades do interior como Bauru (X-77) y Varginha (MG) (XII-76). No exterior estão Quito (X-2006) e Guaiaquil (III-2007). Em outros paises e cidades tem pessoas individuais que continuam trabalhando conforme nossa dinâmica de “ser OPA”.

Já temos realizado mais de 250 OPAs em mais de 50 cidades. Os Encontros Nacionais (muitas vezes internacionais) somam 28. Costumam ter uma média de 90 pessoas. Finalmente digamos que todas as artes são representadas no OPA, sendo que trabalhamos propriamente com os artistas, que trazem suas artes.


Casimiro Irala


Fonte: www.opa.art.br



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