» » » » Veja testes que já não exigem cobaias e aqueles em que são necessárias


Métodos alternativos às cobaias estão em
desenvolvimento, mas ainda não são capazes de
substituir totalmente o uso dos animais.
(Foto: Universidade de Osaka / AFP)
A invasão, na última semana, do Instituto Royal, em São Roque (SP), por ativistas que levaram do local cães e coelhos usados em testes, levantou a polêmica sobre a necessidade do uso de bichos em experimentos.

A ciência tem se esforçado para reduzir e, na medida do possível, eliminar o uso de animais tanto em pesquisas biomédicas, quanto em testes de segurança de produtos, bem como no ensino e treinamento de estudantes.

A maioria das instituições de pesquisa busca seguir, ao utilizar as cobaias, uma linha de princípios conhecida como "3R", que se refere às iniciais, em inglês, de "substituição, redução e refinamento".
 

Enquanto ativistas que lutam pelos direitos dos bichos pedem o banimento do uso de cobaias alegando existirem alternativas eficazes para substituí-las, cientistas ouvidos pelo  G1 afirmam que a substituição total dos testes em animais ainda está longe de se tornar realidade.

O G1 recorreu a especialistas e a instituições cujos trabalhos estão voltados para as questões éticas envolvendo os testes com animais para traçar um panorama de quais são os testes que, atualmente, já podem ser feitos sem animais, e quais ainda dependem das cobaias para a obtenção de resultados seguros.

Olhos e pele
Testes que buscam identificar a ação de medicamentos ou produtos cosméticos na pele ou nos olhos já possuem métodos validados que substituem o uso de animais.

Para avaliar a irritação cutânea e a corrosividade de determinada substância em contato com a pele, não são mais necessários testes que expõem coelhos ou outras cobaias ao produto. Esses estudos podem ser feitos em pele humana reconstituída, ou seja, tecidos produzidos em laboratório por meio de cultura de células.
Cães da raça beagle passam por exames em clínica veterinária nesta tarde de sexta-feira (18) em São Roque. (Foto: Jardiel Carvalho/Frame/Folhapress)
Beagle retirado do Instituto Royal. (Foto: Jardiel Carvalho/Frame/Folhapress)



De acordo com o pesquisador Octavio Presgrave, coordenador do Centro Brasileiro de Validação de Métodos Alternativos (Bracvam), a aplicação desse método ainda apresenta um obstáculo no Brasil: o material utilizado na produção da pele reconstituída é importado e tem validade de apenas uma semana.
Segundo Presgrave, o país já trabalha no desenvolvimento de um modelo brasileiro de pele reconstituída. Foi o primeiro projeto voltado exclusivamente para a substituição do uso de testes animais a receber apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Testes de permeação cutânea, que avaliam a capacidade de determinado produto penetrar na pele, também podem funcionar com um sistema in vitro, ou seja, que envolve apenas a análise de células em laboratório e não o animal vivo.

Experimentos de irritação dos olhos apresentam alternativas que substituem parcialmente o uso de animais. Em vez de submeter o animal vivo ao depósito de grandes quantidades da substância em seus olhos, é possível utilizar olhos de bois ou de galinhas que já foram abatidos para a alimentação.

Temperatura
De acordo com a organização britânica “Fundo para a Substituição de Animais em Experimentos” (Frame, na sigla em inglês), outro teste alternativo disponível é o que avalia se determinado produto é capaz de provocar o aumento da temperatura corporal. Se antes a única possibilidade era o uso de coelhos, hoje existe uma tecnologia para realizar esse experimento no sangue de voluntários humanos.

Ainda segundo a Frame, testes de fototoxicidade, que verificam se o produto torna-se prejudicial quando a pele é exposta ao sol, também podem ser feitos sem o uso de cobaias vivas. Nesse caso, uma cultura de células de camundongos é exposta ao produto e à luz ultravioleta.

Testes virtuais
Modelos computacionais também podem substituir animais em testes para verificar a toxicidade de uma substância ou de que maneira ela será metabolizada pelo organismo. Isso pode ser feito pela análise de moléculas por programas de computador que permitem compará-las com dados referentes a outras moléculas. “São modelos de predição muito úteis quando se começa a pesquisa. Daí, parte-se para os métodos in vitro e, quando se usa o animal, ele não tem grande risco de ser exposto a substâncias muito tóxicas”, diz Presgrave.

Alternativas ainda mais ambiciosas, como a simulação do funcionamento de um órgão completo, estão em desenvolvimento pelo "Instituto Wyss de Engenharia Inspirada pela Biologia", ligado à Universidade de Harvard. O instituto desenvolve microchips capazes de simular a reação dos órgãos humanos a determinados produtos ou microorganismos. Segundo Presgrave, porém, a alternativa ainda não está disponível no país.

Ensino
O médico veterinário Marcelo Winstein Teixeira, membro da Comissão de Ética, Bioética e Bem-Estar Animal do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), observa que uma das áreas em que a substituição do animal tem ocorrido com sucesso no Brasil é a do ensino. Se antigamente universidades recorriam com mais frequência ao sacrifício de animais para a observação e prática de técnicas, hoje existem alternativas como vídeos, simuladores e ferramentas de realidade virtual disponíveis para os estudantes.

Animais ainda são indispensáveis
Enquanto a adesão a essas alternativas citadas é capaz de substituir o uso de animais em determinadas situações, os bichos ainda são imprescindíveis para demonstrar os efeitos do produto no organismo vivo como um todo, de acordo com os pesquisadores.

A médica veterinária Denise Fantoni, presidente do Comitê de Ética em Experimentação da Faculdade de Medicina Veterinária da USP, exemplifica: “Imagine que se está testando um fármaco para pressão arterial. Como o pesquisador vai avaliar esse efeito em um tecido, em uma célula? É preciso ter o organismo todo para saber se aquilo vai ser tóxico para outros órgãos”.

Organismos inteiros
Segundo a pesquisadora Ekaterina Akimovna Botovchenco Rivera, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Ciência em Animais de Laboratório (SBCAL), métodos alternativos ainda não são capazes de simular a interação de todos os sistemas de um organismo vivo. Determinado fármaco que tem como alvo o fígado, por exemplo, pode trazer efeitos colaterais nos rins ou nos pulmões.

“Essas alternativas ao uso de animais são ferramentas que nos ajudam nas primeiras etapas da pesquisa. Mas chega um momento em que é preciso ter o organismo vivo”, diz Ekaterina.

Mesmo na indústria cosmética, que é alvo frequente de campanhas internacionais que demandam o fim da experimentação em animais, ainda há testes que não podem ser feitos sem cobaias.

Reprodução
De acordo com o biólogo Frank Alarcón, representante no Brasil da organização Cruelty-Free International, que apoia o banimento total dos testes animais em cosméticos, ainda não existem instrumentos para avaliar o efeito de determinado produto na reprodução humana sem o uso de animais, por exemplo. “Reproduzir um sistema complexo como o gestacional ainda é um desafio, mas também é um desafio descobrir se o sistema gestacional de um camundongo equivale ao do ser humano”, diz.

Em março deste ano, a União Europeia anunciou o banimento total da comercialização de produtos cosméticos testados em animais. “Alguns testes não podem ser feitos sem animais. Ainda assim, a União Europeia entende que somente através da proibição total, empurra-se a comunidade cientifica a desenvolver métodos alternativos”, completa Alarcon.

Segundo Presgrave, a eliminação total do uso de animais em pesquisa é o objetivo final de órgãos como o Bracvam. Porém, o projeto pode levar ainda muitos anos para ser concretizado, já que todas as alternativas devem ser validadas cientificamente.


Fonte: Portal G1

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