» » » Aos 88 anos, parteira já trouxe mais de duas mil crianças ao mundo

Dona Carmélia conta que até hoje é solicitada para realizar partos  (Foto: Genival Moura/G1)


Aos 88 anos de idade, a aposentada Carmélia de Carvalho Santiago, conta com orgulho, os casos de maior destaque, entre as mais de duas mil crianças que ajudou a dar à luz, na Região do Vale do Juruá, no interior do Acre. Atualmente, morando na zona urbana de Cruzeiro do Sul (AC), a parteira ainda é procurada, mas a saúde debilitada a impede de realizar novos partos.

Dona Carmélia aprendeu o ofício aos 18 anos de idade. Ela conta que se deparou sozinha, com uma mulher em trabalho de parto, na época em que morava em um seringal do Rio Paraná dos Mouras, afluente do Rio Juruá. Diante da necessidade foi obrigada a fazer o parto da vizinha, o procedimento foi um sucesso. Daí em diante, foi atendendo novos casos, até se tornar uma parteira referência por toda região.

A aposentada lembra quando fez o parto do desembargador aposentado, Arquilau de Castro Melo, ocorrido no Seringal Tamburiaco, no Rio Juruá Mirim. O desembargador que nasceu em 26 de dezembro de 1952, confirma que a parteira ajudou no seu nascimento.

“Uma mulher dessas prestou um grande serviço e era solicitada por toda aquela região. No ano passado, eu tive o prazer de conhecê-la e tirar fotos com ela, inclusive são fotografias que ajudaram a enriquecer o meu arquivo pessoal”, comenta o desembargador.

Ajuda espiritual
Casos de mulheres com hemorragia, crianças fora da posição para nascer e outras situações difíceis, ajudaram a parteira Carmélia, a adquirir cada vez mais conhecimento tradicional e buscar força espiritual para realizar os procedimentos.

“Eu fazia uma oração antes de sair de casa, se eu errasse aquela reza, não adiantava nem ir, porque a criança não escapava. Às vezes ficavam insistindo comigo e quando eu chegava ao lugar, encontrava uma mulher cheia de problemas”, comenta.

Há cerca de um ano, dona Carmélia foi acometida de um derrame que deixou sequelas. A idosa tem dificuldades para caminhar e uma dicção pouco entendível, porém, está lúcida e parece esquecer os problemas da vida, quando narra parte de suas incontáveis histórias.

São inúmeras as dicas e receitas para uma gravidez saudável e remédios com uma boa mistura de superstições. “Ontem mesmo veio aqui uma mulher chorando e dizendo que estava para abortar, respondi que com fé em Deus ela ia segurar a criança. Eu disse, volte e quando seu marido chegar em casa, passe água na barba dele e beba, se o menino for dele, tudo vai se normalizar. Ela está boazinha e o problema era porque tinha brigado com o marido. Não se pode brigar com o esposo com quatro meses de grávida”, diz sorrindo.

Desafios na floresta
A missão da parteira durante várias décadas exigiram esforço e coragem para salvar vidas. A qualquer hora da madrugada, independente do clima, ela era solicitada para atender mulheres em trabalho de parto. A viagem poderia demorar dias de barco, ou horas por trilhas no meio da mata.

A parteira lembra que resistiu a vários choques de peixe elétrico (poraquê) ao atravessar a pé áreas de represas. Foi picada por uma cobra surucucu (serpente venenosa) e chegou a sofrer o ataque de uma sucuri enquanto atravessava um lago.

“Eu estava indo com um rapaz que veio me chamar para atender um parto. De repente, a cobra laçou as pernas dele e ele foi perdendo as forças. Mergulhei e arrastei a cobra que quase quebra a minha mão, mas ela soltou. Eu tive que chamar o meu marido para resgatar o rapaz que ficou doente por muito tempo, mas depois se recuperou”, narra.

Casos marcantes
Ao longo dos anos, dona Carmélia foi ganhando cada vez mais experiência, a ponto de fazer praticamente um exame de ultrassonografia, apenas apalpando a barriga de uma gestante com as mãos. Um pouco de talco para deixar a barriga macia, e mãos à obra. Foi assim que ela descobriu que uma de suas clientes estava grávida de trigêmeos. Em outro caso, relembra ela, percebeu que a criança não tinha os dois braços.
“Esse parto das três crianças foi complicado, mas deu tudo certo, já são homens e hoje moram em Rio Branco. A situação mais difícil que passei foi com esse caso do menino sem braço. Sabe que uma pessoa para levantar de uma rede tem que usar os braços, da mesma forma uma criança ajuda no nascimento. Tem médicos ou parteiras que puxam a criança, eu não faço isso, sempre consegui usando apenas o jeito”, explica.

A aposentada destaca ainda um parto de gêmeos siameses que auxiliou no Seringal Belo Monte, Rio Paraná dos Mouras . Conforme a parteira, os dois meninos eram ligados na altura do ombro. “Foi difícil o parto e quando nasceram, eu mesma fiz a operação. Separei os dois com uma navalha, passei azeite doce na navalha para não ferir muito e fiz o corte, graças a Deus que eles cresceram saudáveis e até hoje devem estar vivos”, pressupõe.

Atendimento na cidade
Ao mudar-se do seringal para a zona urbana de Cruzeiro do Sul, numa data que não sabe precisar, dona Carmélia passou a ser ainda mais procurada e nos cálculos dela, realizou mais partos na cidade do que em comunidades ribeirinhas. Sua casa simples no Bairro do Telégrafo chegou a se transformar em uma maternidade do saber tradicional.

A servidora aposentada da justiça, Lindaura da Silva Pinheiro, que trabalhou durante 40 anos, no cartório de registro de nascimento em Cruzeiro do Sul, conta que em alguns dias, registrava mais crianças de partos realizados por dona Carmélia, do que pela maternidade.

“Quando o parto é feito fora da maternidade, a parteira precisa comparecer na hora do registro. Houve dias no cartório, em que de cinco crianças que a gente ia registrar, três tinham nascido de partos conduzidos por dona Carmélia. Um dia fiz uma visita na casa dela e vi que tinham de cinco camas só para atender as parturientes”, afirma à aposentada.

Frustração como mãe
O conhecimento e o sucesso como parteira não conseguiram evitar as frustrações de dona Carmélia, como mãe. Dos oito filhos que deu à luz, apenas um, sobreviveu. Quatro morreram logo após o nascimento, os outros três ficavam doentes e morriam antes dos seis meses de vida.

“Eles ficavam com manchas roxas pelo corpo e morriam. Podia ser mal de criança, mas acho que é porque fui mordida de cobra, quando eu amamentava eles adoeciam e morriam. Só escapou o mais novo que cuida de mim, junto com os meus netos”, agradece.

Trabalho voluntário
Apesar do esforço e das noites de sono que perdeu, a parteira Carmélia faz questão de ressaltar que não cobrava pelos atendimentos, o trabalho era voluntário. “Pelo contrário, muitas vezes as mulheres não tinham o que comer e mesmo sem muitas condições, eu comprava leite e conseguia comida. Fiz muita caridade por esse mundo”, conta.

Com a saúde debilitada e morando em uma casa de madeira bem envelhecida, dona Carmélia entende que pessoas como ela, deveriam ter um melhor reconhecimento e ajuda do governo.

“Tinham que ter um pouco mais de atenção com a gente, ganho uma aposentadoria, mais é muito pouco, não posso ajeitar nem essa casa velha. Hoje não estou fazendo o mesmo trabalho, por causa da doença, não é pela idade”, conclui.


Fonte: Portal G1

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